Ceia ou Santa Ceia?

Qual o Termo Correto?

A expressão “ceia do Senhor”, também conheci¬da nas Escrituras como “mesa do Senhor” (ICo 10.21) ou “partir do pão” (At 2.42; 20.7), faz referencia a uma das duas ordenanças dadas a Igreja, que foram instituídas pelo próprio Senhor Jesus. A primeira é o batismo nas águas, por imersão, uma única vez (Mt 28.19, 20), e em seguida vem a Ceia (Mt 26.26-30).

A Ceia do Senhor como descreve a Bíblia é denominada “santa ceia” pela maioria da cristandade evangélica. Mas o acréscimo da palavra “santa” ao rito, é uma herança do catolicismo romano. As Bíblias mais antigas, por exemplo, traziam gravadas no inicio dos evangelhos, o seguinte titulo: “Evangelho segundo são Mateus”. Não é incomum em nossos dias ainda ouvirmos pregadores se referirem aos apóstolos como “são Pedro” ou “são João”, quando citam alguma passagem por eles escritas.

 

Não há nada errado em chamar a “ceia do Senhor”, de “santa Ceia do Senhor”, porque ela de fato possui um caráter sagrado, solene. Mas a expressão “santa ceia”, como dissemos, não existe na Bíblia. Outra questão en-volvendo a Ceia do Senhor tem relação com algumas heresias do passado. Por exemplo, a Igreja Católica Apostólica Romana, crê que os elementos da Ceia (pão e suco de uva ou vinho), depois de consagrados pelo sacerdote (padre), literalmente transformam-se no corpo e sangue de Cristo (transubstanciação). Mais tarde, Martinho Lutero rejeitou essa tese e criou outra semelhante, ou seja, ele cria que no ato da consagração dos elementos da Ceia a “substância do corpo e sangue de Cristo se une a substância do pão e do vinho” (consubstanciação).

 

Diferente de tudo isso, nossa crença segue na direção do bom senso, isto é, que a Ceia do Senhor é um memorial da sua morte pelos nossos pecados (I Co 11.24), e que os elementos pão e suco de uva são apenas símbolos do corpo e do sangue de Jesus Cristo. De¬pois de orar, eles continuam sendo pão de farinha de trigo e suco de uva. Cremos que eles (pão e suco) são apenas e tão somente uma representação ou figura física da presença invisível de Jesus no momento em que celebramos a Ceia.

 

Já fui questionado inúmeras vezes com relação ao que fazer das sobras da Ceia. Nessa hora é nítida a pre-ocupação dos oficiais da igreja em razão da excessiva espiritualização e até mesmo superstição – herança do catolicismo romano – que fazem do pão e do suco depois de “consagrados”. Como vimos antes, os elementos continuam sendo substancialmente o mesmo, e toda importância ou o caráter sagrado que é dado a eles, só tem sentido na celebração ou no culto solene da Ceia.

 

Algumas igrejas enterram o que sobrou, e outras dão para as crianças comerem. Enterrar a sobra revela, de certa forma, algum resquício das heresias acima cita¬das (transubstanciação e consubstanciação), e dar para as crianças comerem e beberem o que restou, pode escandalizar os mais fracos na fé. Então o que é mais razoável fazer das sobras? Seria interessante consumir o restante entre os próprios participantes da Ceia, ou seja, fazer uma segunda distribuição ou mesmo incentivar que se pegue dois ao invés de um pedaço de pão. Também poderia ser feita a consagração apenas de par¬te do pão e do suco, de modo que a distribuição contemplasse apenas o que precisa ser distribuída.

 

Portanto, a Bíblia não diz nada com relação ao que fazer especificamente com o que resta da Ceia. Na Lei de Moisés, havia a seguinte ordem com relação ao cordeiro da páscoa: “Nada deixareis dele até pela manhã; o que, porém, ficar até pela manhã, queimá-lo-eis” (Êx 12.10). Depois de multiplicar os pães e peixes, nosso Senhor ordenou: “…Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca” (Jo 6.12). Deste modo, se decidirmos comer o restante não há nada errado nisso. Se preferirmos guardar para a próxima Ceia, bem está, mas se decidirmos simplesmente joga fora o que sobrou, não incorremos em pecado algum. Seja como for, com reverencia e bom senso, devemos descartar o restante da forma mais conveniente possível.